Final de ano é uma época em que as pessoas costumam refletir sobre o que fizeram ao longo do ciclo que passou, além de planejar o ano que se aproxima. Inúmeras promessas são feitas e metas são estabelecidas.

Começar a investir – ou ser mais disciplinado com as finanças pessoais – costuma figurar entre as prioridades. Pensando nisso, abordaremos neste artigo as oportunidades que enxergamos para o ano que vem, bem como os riscos que conseguimos identificar até o momento.

Eleições

A eleição de Jair Bolsonaro foi bem recebida pelo mercado financeiro. O IBOV vem renovando máximas históricas desde o encerramento do pleito eleitoral. O dólar, que chegou a ser negociado acima dos R$4,20, recuou e parece se estabilizar entre R$3,70 e R$3,80, em linha com o que tem sido projetado por economistas nos últimos boletins Focus.

Até o momento, o impulso da bolsa tem sido pautado nas expectativas. Bolsonaro prometeu reformas estruturais a serem tocadas por Paulo Guedes. A formação da equipe ministerial tem agradado bastante o mercado, na medida em que a indicação de nomes técnicos tem substituído as indicações puramente políticas – muito comuns nos governos anteriores.

Ademais, os indicados para chefiar as estatais são reconhecidamente liberais. Não bastasse, Salim Mattar (ex-Localiza) ficará à frente da Secretaria Geral de Desestatização.

É consenso, no entanto, que o principal entrave para o futuro governo será a pauta fiscal. O controle dos gastos públicos (em especial a aprovação da Reforma da Previdência) será fundamental para que esse otimismo seja mantido.

O mercado financeiro parece ter dado um voto de confiança para o futuro governo, com forte posicionamento por parte dos investidores institucionais residentes.

Ainda há um desconforto no setor, tendo em vista que o investidor estrangeiro observa isso tudo a distância. Os dados divulgados até o momento, indicam uma retirada de capital aproximada de R$4 bilhões no mês de novembro por parte deste grupo.

Uma eventual aprovação da Reforma da Previdência pode traze-los de volta à bolsa local, impulsionando o movimento de alta. Caso contrário, essa lua de mel pode acabar e fazer com que o otimismo se transforme em pânico.

Retomada da economia

O IBGE divulgou o PIB do 3º trimestre de 2018. Os números foram bem animadores. A economia brasileira cresceu 0,8% em relação ao 2º trimestre de 2018 e 1,3% em relação ao 3º trimestre de 2017. O crescimento se deu na esteira de aumento no consumo das famílias, serviços e investimentos.

Essa retomada vem acompanhada do aumento dos índices de confiança do consumidor e do empresariado. Inúmeras companhias já anunciaram fortes investimentos para 2019, o que pode contribuir para a geração de empregos.

O futuro governo terá um cenário favorável, com inflação controlada e taxa de juros na mínima histórica – SELIC a 6,5%.

Desafios

O cenário otimista descrito acima deve, no entanto, ser encarado com certa cautela por parte do leitor. O ambiente externo para 2019 será bastante desafiador e pode impactar o mercado brasileiro.

Liquidez global

O principal remédio para superar a crise financeira de 2008 foi a instituição dos programas de recompra de títulos, via injeção de liquidez por parte dos Bancos Centrais – o chamado Quantitative Easing.

O excesso de liquidez gerado por esses programas permitiu um forte crescimento nos mercados de renda variável ao redor do mundo. As bolsas dos EUA engataram uma tendência de alta impressionante, que deu sinais de perda de fôlego somente nos últimos meses.

Infelizmente, o Brasil ficou de fora dessa expansão, afinal, passávamos por uma crise econômica e institucional, em meio ao impeachment da ex-presidente Dilma e denúncias graves contra seu sucessor, Michel Temer.

Recentemente, o Banco Central do Japão, o FED e o BCE, anunciaram a redução do programa de recompra de títulos, indicando que esse excesso de liquidez será reduzido. Menos liquidez, significa que o investidor estrangeiro será mais seletivo na definição de seus portfólios.

Diante disso, uma sinalização de controle fiscal por parte do novo governo se torna cada vez mais importante.

Elevação dos juros

Além do Quantitative Easing, os Bancos Centrais ao redor do mundo reduziram suas respectivas taxas de juros para combater a crise de 2008. No entanto, o Banco Central Europeu já indicou que iniciará uma retomada de suas taxas em meados de 2019. O FED também vem elevando suas taxas e é prevista mais uma elevação ainda em 2018.

Nesta última semana, Jerome Powell (Presidente do FED), em coletiva de imprensa, deu a entender que a escalada dos juros dos EUA possa estar chegando ao fim, o que foi bem recebido pelo mercado de renda variável ao redor do mundo.

Analistas ainda divergem sobre até quando o FED seguirá elevando sua taxa alvo. Alguns acreditam em mais três altas em 2019, enquanto outros cravam quatro altas. O discurso de Powell, corroborado pela divulgação da Ata da última reunião do FOMC, fez com que fossem aumentadas as apostas em três elevações em 2019.

Crescimento global

O crescimento global tem sido revisado pra baixo por instituições como a OCDE e o FMI. A principal razão para essas revisões é, sem dúvidas, a guerra comercial protagonizada por EUA e China desde meados de 2018.

O governo americano elevou as taxas de importação sobre mais de US$200 bilhões em produtos chineses, o que gerou retaliações por parte do gigante asiático.

Nesta semana será iniciada a reunião do G-20 em Buenos Aires. No evento, está marcada reunião entre Trump e Xi Jinping e a expectativa do mercado é que essas questões comerciais tenham um desfecho amigável.

O mercado interno parece bem animado, com investidores locais migrando de ativos de renda fixa para investimentos com maiores riscos associados. Em nossa visão, o Brasil pode ser uma excelente oportunidade de investimento sob a ótica do investidor estrangeiro, caso consiga desarmar a bomba fiscal.

Sendo assim, aplicar na bolsa de valores em 2019 tem sido uma das principais indicações de casas de análise renomadas. O desafio para o investidor será buscar empresas sólidas e com forte geração de caixa. Na previsão de alguns analistas, o IBOV pode superar a marca dos 100.000 pontos, o que fará com que diversos ativos locais se valorizem substancialmente.

Para o investidor que não tem conhecimento suficiente ou confiança para tomar decisões por conta própria, a sugestão é se expor ao mercado de renda variável através de fundos de investimentos.

Alguns fundos geridos por gestores conhecidos que estavam fechados, reabriram para captação. As plataformas das principais corretoras permitem que o investidor compare a rentabilidade passada dos fundos a fim de se decidir a respeito do que mais se adequa ao seu perfil.

Para os mais cautelosos, analistas vêm indicando a exposição a títulos atrelados à inflação, ou que possam se valorizar numa eventual retomada das taxas de juros. O racional por trás dessa indicação é que, numa eventual retomada da economia, a inflação será pressionada, potencializando os retornos desses títulos. Nesse caso, o Banco Central pode subir um pouco a SELIC a fim de lidar com essa nova inflação.

Podemos estar diante de um forte ciclo de alta para a bolsa brasileira. Uma boa condução da política fiscal por parte do novo governo e uma atuação coordenada com o Congresso podem garantir um futuro promissor para o país.

É preciso, no entanto, monitorar até que ponto uma piora no cenário externo não prejudicará a retomada da economia brasileira.

Sugerimos aos investidores que façam uma autoanálise do seu apetite ao risco e compreendam a importância de investir seus recursos de forma eficiente, visando a independência financeira. Nesse processo, a busca por conhecimento e o acompanhamento de um profissional do ramo é extremamente recomendável. Feliz ano novo!

Rafael Mendes

About Rafael Mendes

Formado em direito, com MBA em Gestão de Projetos e certificado pelo Sebrae em Análise e Planejamento Financeiro. Atualmente, é operador de dólar, índices e ações, além de responsável pela geração de conteúdo da WM e por auxiliar na área educacional.

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