Antes de entrarmos no foco do presente artigo, gostaríamos de deixar claro que não é de nosso interesse capitalizar de qualquer forma com o desastre ocorrido. Lamentamos profundamente por todos os mortos e desaparecidos e nos solidarizamos com os familiares que estão sofrendo no momento. Também sentimos bastante por todo o impacto ambiental gerado pelo vazamento dos rejeitos de mineração que impactaram também animais, vegetais e o solo do local. Não temos objetivo tampouco de procurar apontar responsáveis ou culpados pelo ocorrido, papel esse de incumbência da administração pública, ministério público e poder judiciário.

Escrevemos o presente artigo em resposta aos inúmeros contatos de investidores com nossa equipe de comunicação procurando auxílio para monitorar posições compradas em ações da empresa, alguns deles, desesperados por terem uma parcela considerável de seu capital alocado no ativo.

Para os que se encontram nessa situação, a primeira lição já deve ter sido aprendida. Independentemente da empresa ou setor, investir em ações de forma sustentável e consistente implica em diversificar seus investimentos. Ao concentrar uma parcela significativa dos seus recursos numa única ação ou classe de ativos, o risco de episódios como esse resultarem em prejuízos aumenta consideravelmente. Assim sendo, a sugestão neste caso é reavaliar todas sua carteira de investimentos e procurar auxílio profissional a fim de promover seu rebalanceamento antes que seja tarde demais.

Ainda é muito cedo para estimar de forma adequada o impacto dos acontecimentos nas projeções para a empresa. Será sem dúvida um desafio enorme para a empresa que, além das implicações financeiras geradas por bloqueios, multas e processos judiciais – tanto no Brasil quanto no exterior – ainda corre o risco de ter que lidar com mudanças na diretoria executiva e em seu conselho de administração. A gestão atual da Vale vinha sendo muito elogiada por analistas e uma alteração em cargos de liderança pode não agradar ao mercado.

Outro risco que pode ser apontado no momento é a saída de fundos de investimentos que adotam critérios ambientais e de sustentabilidade para orientar suas aplicações, em especial, o ESG (environmental social and governance). Grandes fundos europeus tomam decisões com base nesses critérios e podem reduzir ou mesmo zerar sua exposição à empresa.

Não bastasse, as normas para condução da atividade devem ser alteradas e endurecidas, afinal, em menos de 4 anos, trata-se da 2ª tragédia com características similares. Além disso, a empresa corre o risco de perder licenças ambientais ou serem exigidos investimentos significativos para novas adequações. Caso o setor público tome medidas nesse sentido, é possível até que no longo prazo as medidas venham a ser benéficas. Afinal, adequações de segurança podem reduzir o prêmio de risco associado à atividade, incrementando o valuation das empresas do setor.

Dessa forma, as perspectivas em torno dos fundamentos da empresa ainda não são claros e qualquer análise pode ser prematura neste momento.

 

Preço

Analisando-se exclusivamente o preço das ações, nem mesmo a queda de aproximadamente 25% na última 2ª feira – a maior queda de uma ação brasileira em um único dia na história – chega a preocupar do ponto de vista da tendência.

Desde o desastre de Mariana, as ações da empresa já se valorizaram mais de 200%, numa clara tendência de alta que pode ser verificada no gráfico abaixo (gráfico semanal).

ações valeObviamente, a conjuntura econômica e as mudanças de perspectivas para o país colaboraram significativamente para este movimento. Quando do rompimento da Barragem do Fundão em Mariana, o Brasil ainda estava sobre a égide da malfadada “Nova Matriz Econômica”, implementada por Dilma Rousseff.

Graficamente, entre 2ª e 3ª feira (28 e 29 de janeiro de 2019) o preço se segurou num patamar de suporte, entre R$42,00 e R$41,00. Há ainda duas regiões de preço que podem servir de suporte caso o papel siga sofrendo com a pressão vendedora. É possível que ela se segure na região dos R$35/R$36 e depois entre o R$30/28. Somente abaixo desses patamares o preço desconfiguraria a tendência primária do ativo.

 

Fluxo

 

Nos últimos dias, alguns gestores de importantes fundos manifestaram suas percepções com relação à situação da empresa, reforçando as dúvidas no que se refere ao impacto sobre os fundamentos da empresa. Entretanto, foi noticiado que fundos como o Mauá Capital, Alaska Black e Quantitas seguem com suas posições até uma reavaliação do cenário. De acordo com a Infomoney, a exposição desses fundos à papeis da Vale varia entre 8% e 10%.

Nossa equipe educacional monitorou o fluxo de compra e venda de ações da VALE3 nos dois pregões pós-desastre, e o resultado segue abaixo:

ações valeTrata-se do saldo dos 5 destaques compradores e vendedores nos dias citados, fazendo-se a ressalva de que é registrada a corretora pela qual a ordem foi executada, não sendo possível portanto, identificar as instituições que realizaram as operações.

Apesar de ser responsável por aproximadamente 10% do IBOV, a derrocada das ações da Vale ainda não alterou significativamente o principal índice da bolsa brasileira. O IBOV que fechou a 2ª feira com uma queda de 2,2%, se recuperou nesta 3ª feira (alta de 0,2% – 95.640 pontos). A própria VALE fechou a terça feira em alta de 0,85% cotada a R$42,74.

 

Conclusão

 

Diante de todo o cenário, é preciso que cada investidor avalie de forma serena sua situação antes de tomar qualquer atitude. No mercado financeiro é preciso evitar esses movimentos de manada. Sugerimos que cada um avalie seu portfólio de ativos, o prazo pelo qual pretende investir para não tomar decisões que podem gerar arrependimento no futuro. Não é possível assegurar o comportamento de preços futuros do papel. Entretanto, a graficamente o papel ainda se encontra em tendência de alta. Ademais, no que se refere à capacidade produtiva, a mina onde ocorreu o desastre representa algo em torno de 2% da produção total da empresa – o que mitiga o potencial de impactos significativos no fluxo de caixa futuro.

Reforçamos uma vez mais a solidariedade com aqueles que perderam amigos e familiares e esperamos ter colaborado de alguma forma com aqueles que se encontram posicionados no ativo.

 

 

Rafael Mendes

About Rafael Mendes

Formado em direito, com MBA em Gestão de Projetos e certificado pelo Sebrae em Análise e Planejamento Financeiro. Atualmente, é operador de dólar, índices e ações, além de responsável pela geração de conteúdo da WM e por auxiliar na área educacional.

Leave a Reply