" " O que esperar de 2020 - WM Manhattan

Fim de ano é sempre igual: resoluções de fim de ano, retrospectivas e uma série de previsões que pouca gente se dá ao trabalho de verificar se foram concretizadas ou não.

A intenção deste artigo não é ser engenheiro de obra pronta. Até porque, se tratando de mercado financeiro, não dá pra fazer dinheiro somente olhando pra trás. No entanto, é importante olhar de onde viemos para tentar projetar até onde podemos chegar e, principalmente, identificar fatores de risco que podem servir como obstáculos ao longo de 2020.

Ao final de 2018 havia uma euforia exacerbada com a vitória de Jair Bolsonaro. Não pela figura do presidente, mas sim pela equipe formada, em especial:

Paulo Guedes para o Ministério da Economia;

Sérgio Moro para o Ministério da Justiça;

Salim Mattar para Secretário Especial de Desestatização e Desinvestimento do Ministério da Economia.

As projeções dos analistas estimavam um crescimento para 2019 na ordem de 2,5%, da mesma forma como projetam agora um crescimento de 2,3% para 2020 (Boletim Focus – 27/12/2019).

O crescimento de 2019 foi frustrado, provavelmente o PIB de 2019 ficará entre 1,1% e 1,15%. Será que em 2020 será diferente?

Apesar da frustração com o PIB, a economia mostrou números interessantes. O varejo fechará com alta superior a 4% em relação a 2018, com a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping indicando que foi o melhor Natal desde 2015, com crescimento de 9,5% das vendas em relação ao ano anterior. O CAGED indicou uma redução no desemprego – 11,6% de desempregados. Existem ainda 38,8 milhões de trabalhadores informais. É esperado ainda o anúncio do déficit do setor público que deve mostrar um déficit bem abaixo do provisionado – R$70 bilhões, ante R$139 bilhões esperado. Neste cenário, a inflação se manteve comportada permitindo que o Banco Central cortasse os juros para as mínimas históricas – 4,5%. Assim, o risco país fechou o ano aos 98.8 pontos.

A redução da SELIC acabou pressionando muitos fundos de investimento e investidores individuais a migrarem para ativos de renda variável. Esse movimento, aliado a resultados robustos de algumas companhias, fez com que o IBOV fechasse o ano em forte alta de 31,58% renovando inúmeras vezes sua máxima histórica.

A aprovação da Reforma da Previdência foi um dos principais drivers ao longo do ano, trazendo muita volatilidade para o mercado, especialmente durante os debates na Câmara dos Deputados que contaram, inclusive, com bate bocas hilários entre o Ministro Paulo Guedes e membros da oposição. A aprovação, cuja expectativa era de ter sido concluída até o meio do ano, se arrastou por 9 meses. Ao final, as projeções são de economia de R$800 bilhões em 10 anos.

Dólar

O dólar teve um ano bem volátil com diversos catalisadores, tais como a tramitação conturbada da Reforma da Previdência, a Guerra Comercial entre EUA e China e o BREXIT.

 Quando finalmente parecia que ele voltaria a trabalhar abaixo dos R$4,00, houve uma correria gerada pela frustração com o leilão dos excedentes da sessão onerosa. Havia uma expectativa enorme de que estrangeiros se interessariam pelos campos leiloados, o que traria um fluxo de dólares para o mercado local, o que acabou não acontecendo. Ainda assim, mesmo após flertar com os R$4,30, a divisa americana fechou o ano na região dos R$4,03;

Mercado externo

No exterior, os principais focos de apreensão para os mercados foram a Guerra Comercial protagonizada entre EUA e China e as tratativas em torno do BREXIT.

EUA e China passaram o ano trocando farpas através da imprensa e elevando tarifas alfandegárias.  Ao longo do ano foram inúmeros avanços e retrocessos desde o anúncio do acordo realizado na reunião do G-20 em Osaka, no Japão. Por fim, está prevista a assinatura da fase 1 do acordo em 15 de janeiro de 2020.

O BREXIT também foi uma longa novela. Theresa May até chegou a costurar um acordo com a União Europeia. Entretanto, não teve traquejo político suficiente para aprová-lo junto ao Parlamento e acabou renunciando. Boris Johnson assumiu a condução da saída do Reino Unido do bloco europeu e encerrou o ano com uma acachapante vitória nas eleições que foram antecipadas para dezembro. Johnson pretende concretizar a saída do Reino Unido até dia 31 de janeiro de 2020 e um acordo comercial com o Bloco Europeu até o fim de 2020.

Bancos Centrais

A condução da política monetária tem sido um dos principais focos de debate entre economistas e analistas de mercado. As principais economias do mundo estão com taxas de juros bem próximas a 0%, quando não em patamares negativos. Estima-se que há mais de US$15 trilhões alocados em títulos que pagam juros negativos, o que, na visão de muitos, é um baita sinal amarelo para a economia global.

O FED realizou cortes na sua taxa básica de juros em meio à pressões de Trump sobre o Presidente do FED – Jerome Powell.

O Banco Central Europeu teve troca de comando. Encerrou-se o mandato de Mario Draghi que deu lugar a Christine Lagarde. A nova presidente receberá uma Europa em situação delicada, com a Alemanha dando sinais de retração, com uma taxa de juros de 0% e pressionada a prosseguir com incentivos aos bancos europeus – TLTRO´s.

O intrigante é que, mesmo com todos os riscos apontados por analistas e mesmo com todas as adversidades no horizonte, as principais bolsas fecharam 2019 bem próximas às máximas históricas:

Dow Jones – 22%

Nasdaq – 35%

S&P500 – 28,9%

Stoxx600 – 23%

Xangai Composite – 22%

E para 2020? O que esperar?

O ano já começou com fortes movimentos nos mercados mundo afora. No 1º pregão do ano, o IBOV fechou em alta de 2,53% aos 118.573 pontos.

As perspectivas para o ano que se inicia são boas. O governo pretende aprovar as reformas tributária e administrativa em 2020, o que pode dar mais fôlego ainda para a economia e para a bolsa. O caminho não será fácil, afinal, no 2º semestre haverá eleições municipais, o que diminuirá consideravelmente o ritmo das atividades no Congresso.

O controle das contas públicas pode ainda fazer com que agências de classificação de risco revisem a nota do Brasil, inclusive com a possibilidade de retomada do grau de investimento.

O importante, no entanto, é que o investidor local tenha cautela para não entrar na euforia. Graficamente, a reversão de tendência ocorreu em 2016, quando o IBOV rompeu uma linha de tendência de baixa que perdurava desde o pós-crise de 2008.

É notório que em Bull Markets, há um ingresso significativo de pessoas físicas. Na bolsa brasileira, o número de CPFs subiu de 811 mil em 2018 para 1,6 milhões em 2019. Será que esse pessoal está capacitado para tomar decisões por conta própria?

Além disso, por mais que o cenário seja benigno para o Brasil, o mercado externo pode servir como freio para a manutenção da recuperação do mercado local.

Nos EUA, Trump ainda enfrenta um processo de impeachment que, por mais que dificilmente seja aprovado, impactará sua imagem em pleno ano eleitoral. As eleições americanas trarão volatilidade adicional até o dia 03 de novembro. Os principais adversários do atual presidente na corrida eleitoral, no momento são: Michael Bloomberg, Elizabeth Warren e Joe Biden. As eleições de 2016 mostraram que é perda de tempo traçar cenários – acreditava-se que Hillary ganharia com folga, acreditava-se que o mercado cairia com Trump. Trump ganhou e o mercado americano disparou.

É preciso ficar atento à liquidez do sistema financeiro americano. Em setembro houve um stress nos repurchasing markets (“repo markets”) quando a taxa disparou para 10% num único dia, forçando o FED a injetar US$63,5 bilhões para evitar um congelamento nos empréstimos interbancários. Posteriormente, o FED informou que injetaria US$500 bilhões para prover liquidez ao sistema e evitar novos solavancos? Estamos diante de um evento pontual, ou trata-se de um problema sistêmico? Para maiores informações sobre o ocorrido, leia o artigo do Hélio Beltrão sobre o tema (https://tinyurl.com/t97l56y)

Ainda será preciso monitorar como se dará a saída do Reino Unido da União Europeia e quais os impactos da Guerra Comercial no crescimento chinês, que vem desacelerando ano a ano.

Por fim, o Oriente Médio sendo foco constante de tensões. Em 2019 um ataque à Saudi Aramco estressou o mercado de petróleo e pressionou as bolsas mundo afora. Na primeira sexta-feira do ano, foi noticiada a morte do general iraniano Qassem Soleimani com autorização do presidente americano. O Irã já anunciou retaliações e os mercados sentiram. Estaremos diante de mais uma guerra?

Diante de todo esse cenário, a única certeza é a de que teremos muita volatilidade para os mercados de renda variável. O Brasil tem a oportunidade de se descolar do mundo, por estar saindo de uma crise severa e ainda ter espaço para retomar o crescimento. O fato de Chile, Argentina e outros emergentes estarem enfrentando crises políticas pode fazer com que o Brasil seja uma boa alternativa para o investidor estrangeiro.

No entanto, não será muito inteligente se expor na bolsa de peito aberto porque o cenário externo será extremamente desafiador.

Para os investidores, será preciso buscar boas oportunidades, tendo em vista que muitos papéis já ficaram esticados para entrar agora. Analistas projetam IBOV a 130.000 pontos | 150.000 pontos, o que ainda dá um bom upside, mas a que risco?

A renda fixa ainda serve como porto seguro e, por mais que a rentabilidade não seja a mesma dos anos Dilma, o lucro real ainda está entre os maiores do mundo civilizado.

O mais importante é que o investidor busque capacitação e procure profissionais sérios a fim de evitar surpresas desagradáveis.

Para nós traders, isso tudo pouco importa. Contanto que o mercado oscile, seja pra cima ou pra baixo, aqueles que tiverem um bom mindset e estratégias metrificáveis terão boas oportunidades.

Desejamos a todos um excelente 2020!

Rafael Mendes

About Rafael Mendes

Formado em direito, com MBA em Gestão de Projetos e certificado pelo Sebrae em Análise e Planejamento Financeiro. Atualmente, é operador de dólar, índices e ações, além de responsável pela geração de conteúdo da WM e por auxiliar na área educacional.

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